Eu tinha 15 anos quando recebi a noticia. Não lembro o dia
exato da sua visita. Lembro-me de estar sentado na sala, arrumava alguns
desenhos que deixei espalhado. Meu pai, como de costume estava deitado no sofá assistindo
jornal. Minha mãe por sua vez, limpava e cozinhava, numa repetição mecânica,
todos os dias.
Alguém bateu na porta, uma vez, duas vezes. Abaixei-me pra
ver entre as frestas se adivinhava quem era. Ele não bateu uma terceira vez, e
num chute arrebentou a porta. Fiquei estático, parado, esperando a reação de
meu pai para ver o que faria; NADA, dele só vi o aperto nos olhos. Olhei para
trás e minha mãe estava de costas, começou a falar em voz alta para meu pai o
que aconteceu um dia atrás no programa de culinária.
Nunca vou esquecer sua aparência e dizem que varia de pessoa
para pessoa: nem muito alto ou baixo, usava um terno, um chapéu, tipo os que os
avôs costumavam usar, e dava para perceber um largo e aberto sorriso vindo
dele. Aquela coisa me puxou pelos pés e não parava de falar.
_ O que vc quer comigo???
Essa foi a única coisa que eu pude lhe dizer. Ele parou , me encarou e
prosseguiu...
_Vida é o meu nome, moleque.
Pode me chamar também de experiência, se preferir. Eu sou aquilo ou
aquele que se encarrega de ensinar você como tudo isso funciona. Não serei
legal, não serei amável, não serei seu amigo. Primeiro atiro, depois faço as
perguntas. Desculpe-me o trocadilho mas, na escola da VIDA, eu sou o professor.
E novamente, seus puxões e sua gargalhada era a única coisa audível na sala.
Pais, irmãos, amigos, conhecidos, nem mesmo livros puderam
me preparar tão bem quanto ele. Chorei, tive raiva, não entendi, por vezes
esperei para descobrir a resposta, mas a resposta estava nele. Ainda lembro-me
do dia de sua visita, quando procurei ajuda nas pessoas mas só depois, com
muito custo, percebi que a resposta não estava nelas, mas em mim e nas minhas
ações.
Hoje é diferente, sei que ao passo que desenvolvo minhas experiências,
terei de aprender uma coisa ou outra. Seja em um trabalho de faculdade, seja no
meu próprio trabalho, no relacionamento com as pessoas ou qualquer lugar, ele não
para de me vigiar e está pronto para me ensinar mais uma coisinha, grande ou
pequena. Ainda esse mês estive numa entrevista de emprego e ao ser questionado
do por que de ser o melhor dentre todos, olhei para o lado e vi alguém entrar. Com
seu velho chapéu e seu largo sorriso, puxei uma cadeira e o convidei a
sentar...
Vida, pensei que não ia aparecer...